Por Janine Schultz

Em dezembro de 2012 durante as transmissões Dam Ngak Dzo- oferecidas por Dzongsar Khyentse Rinpoche no Instituto Dzongsar em Chautra-India, a Fundação Khyentse convidou Orgyen Tobgyal Rinpoche ao Deer Park para explicar a conexão entre o bodisatva Manjushri, que é a corporificação de toda a sabedoria de todos os Budas das dez direções e dos três tempos, e a linhagem Khyentse. Tudo muito bem, estudantes reunidos Orgyen Tobgyal compareceu e apesar da noite sazonalmente fria, essa não foi uma dificuldade com a qual os estudantes estrangeiros famintos por ensinamentos do darma tenham tido problema em lidar. Tudo começou de forma bastante inocente, muito assertivamente antes de derramar a mais mínima joia de sabedoria. OT Rinpoche disse que queria ser totalmente claro a respeito daquilo sobre o que deveria falar. Então o representante da Fundação Khyentse Junn Xie, levantou-se e formal e respeitosamente inquiriu sobre a conexão de Manjushri e a linhagem Khyentse.

“ Os professores Khyentse ou os próprios ensinamentos? Perguntou OT Rinpoche, talvez de maneira meio desafiadora. “ Se você não sabe sobre o que quer que eu fale, como poderei saber?

“Ambos, respondeu Jun.

“ Mas qual é o propósito? Perguntou OT Rinpoche nitidamente se divertindo

“ Nós sempre dizemos que Dzongsar Khyentse Rinpoche é Manjushri, mas porque motivo? Perguntou Jun de forma respeitosa porém um pouco mais firme

“ Você quer dizer que não confia nos ensinamentos que lhe dizem que Jamyang Khyentse Wangpo foi uma emanação de Manjushri?” respondeu Rinpoche de um jeito de um gato que espreita um rato que vai ser sua ceia. E honestamente como você se esquivaria desta estocada certeira na sua jugular? Jun manteve a calma afirmando que confiava plenamente nisto, porém interessava-lhe saber mais

“ A maneira mais curta e fácil de se colocar isto” disse OT Rinpoche parecendo abrandar, mas um pouco apenas, “ É que Jamyang Khyentse Wangpo foi uma emanação de Manjushri; Jamyang Khyentse Choky Lodro foi a reencarnação de Khyentse Wangpo, e agora Dzongsar Khyentse Rinpoche é a reencarnação atual de Choky Lodro. Isto é o suficiente para aqueles que sabem, mas se você não sabe…Minha questão aqui é que não entendo qual a necessidade de tal explicação, qual sua utilidade? Para os tibetanos esse ponto é totalmente claro. É o suficiente simplesmente declarar que Jamyang Khyentse Wangpo é uma emanação de Manjushri. Nunca houve qualquer dúvida a respeito disto! Eu não acredito que esta pergunta tenha sido jamais feita por qualquer pessoa no Tibet e nem mesmo por tibetanos atualmente vivendo no ocidente …não até hoje. Todos os grandes mestres, lamas, monges e leigos sabem que Jamyang Khyentse Wangpo é Manjushri, aí está. O que torna bastante natural dizer por conseguinte que Dzongsar Khyentse Rinpoche é o Manjushri da nossa era, a corporificação viva da sabedoria de todos os Budas das dez direções e dos três tempos.

É claro que a grande compaixão de OT Rinpoche foi tal que ele continuou explicando em termos formais de maneira que todas as provas tradicionais necessárias aos tibetanos pudessem ser encontradas nas grandes biografias que descrevem em detalhe as vidas e liberação de Khyentse Wangpo e Choky Ladro, por exemplo, e a lista de Khenpo Kunga Wagchuk onde constam as 73 emanações de Manjushri, todas corporificadas em Dzongsar Khyentse Rinpoche . Porém cada palavra que disse apenas reiterou, a partir das diferentes perspectivas, o fato de os Khyentses serem Manjushri. Porque estou elaborando este assunto? Bom, a questão é que a Fundação Khyentse está lançando uma nova iniciativa que Rinpoche batizou de A serviço de Manjushi e preciso confessar que da primeira vez que ouvi falar sobre isso pensei se não seria uma reivindicação um tanto exagerada. Mas sob a luz da resposta de OT Rinpoche para a pergunta de Jun, tudo indica que Rinpoche estava como sempre, simplesmente expressando a verdade.

A ideia por trás do A Serviço de Manjushri é a de dar a todos os amigos e alunos de khyentse Rinpoche a oportunidade de ajudar no estabelecimento de uma base estável de contribuição de forma a facilitar a implementação de sua visão em relação ao futuro do Budadarma, não apenas no ocidente, mas por todo o mundo moderno. E ao nos envolvermos servindo a Khyentse Rinpoche dessa maneira estamos na verdade servindo a Manjushri. Não há necessidade aqui de usar abstrações ou similis e nem a imaginação- tão rara nesse mundo invertido do budismo tibetano. Enfim, OT Rinpoche continuou falando for volta de uma hora (aliás, obrigada Gyurme por traduzir) a noite chegou ao fim e todos foram para casa se aquecer. No dia seguinte, no entanto, a noticia se espalhou como um rastilho de pólvora de que OT Rinpoche não tinha ficado satisfeito com seus ensinamentos da noite anterior e queria dizer mais alguma coisa. Então, uma vez mais estudantes se reuniram no Deer Park , para o que esperávamos fosse a primeira das muitas palestras sobre a vida de Dzongsar Khyentse Rinpoche. Mas, como diz o ditado, essa é uma outra história.